ARTE E EDUCAÇÃO: O contexto local e a prática em sala de aula - artigo compartilhado pela nossa egressa e mestranda Maria de Souza

Artigo publicado no 1º Congresso Nacional de Educação de Abelardo Luz “Novos olhares sobre os desafios da Educação” pela Egressa Maria de Souza em conjunto com Angélica Bort.

14/12/2018
Por: Márcia Moreno
Auto-retrato. Da série duplo auto-retrato de Luciano Guralski. Fotografia/2008. Fonte: http://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/2959/2311.

ARTE E EDUCAÇÃO: O contexto local e a prática em sala de aula

Maria de Souza1

Angélica Bort2

RESUMO

Este estudo tem como objetivo instigar reflexões acerca do emprego dos movimentos artísticos locais no cotidiano escolar, em especifico na região de Chapecó - SC. Fundamenta-se nas concepções do ensino da arte e autores que discutem tais questões, intercalando com a biografia de três artistas chapecoenses que se deu através de entrevistas semiestruturadas. Através de uma abordagem qualitativa bibliográfica, tenciona-se a relevância da abordagem dos trabalhos dos mesmos em sala de aula. Como principais resultados, conclui-se que os materiais que abordam a vida e obra dos artistas locais são escassos e que isso dificulta a abordagem em sala de aula, por outro lado, as relações que se pode fazer entre as produções artísticas locais e o cotidiano dos/das estudantes são amplas, merecendo ser estudas e repensadas na educação básica.

Palavras-chave: Educação. Ensino da arte. Artistas locais.

 

1 INTRODUÇÃO

Muitos autores que discutem aspectos envolvendo o ensino da arte no Brasil, vem enfatizando em suas pesquisas a importância da relação da prática e conteúdos em sala de aula com o cotidiano dos/das estudantes, nesse quesito, ampara-se em Ana Mae Barbosa (2002 – 2009), Silvia Sell Duarte Pillotto (2008) e Maria Heloísa Corrêa de Toledo Ferraz; Maria F. de Rezende e Fusari (1993).

Porém, a experiência em sala de aula não mostra essa ênfase. Contrariamente, ao deparar-se com a realidade do ensino da arte, observa-se que existe uma certa defasagem em relação ao conhecimento artístico local. Na maior parte das vezes as aulas de arte se baseiam em referenciais de artistas de grande renome, sendo que a maioria são europeus. Quando são brasileiros estão localizados nas grandes metrópoles do país. Compreende-se a relevância que há em abordar esses artistas, esses movimentos e no geral a história da arte. Por outro lado, constitui-se uma distância desse conteúdo com a realidade dos/das estudantes, que embora se possa fazer um paralelo com o cotidiano dos/as mesmos/as, essa relação ainda é rasa.

Dessa forma, buscou-se informações sobre a vida e obra de três artistas da cidade de Chapecó, estado de Santa Catarina – Brasil, a fim de compreender e valorizar suas produções, bem como propor uma reflexão acerca da importância de trabalhar em sala de aula obras de artistas locais em uma relação com o cotidiano.

A escolha dos artistas entrevistados para esta pesquisa, está relacionada às temáticas diferenciadas que cada um aborda, bem como aos materiais utilizados, que vão desde a fotografia até vísceras de porco. Também pelo fato de que as abordagens educacionais a partir desses artistas podem perpassar o estudo da pintura, da fotografia, da intervenção urbana e da performance, em um paralelo com os estudos da arte contemporânea local. Considera-se também, o fato de que esses artistas já expuseram em diversas cidades do estado de Santa Catarina, dando ao seu trabalho um reconhecimento maior. Compreende-se que esta proposta se baseia em apenas três artistas, mas que o/a professor/a pode buscar em sua prática outros referenciais. O que se pretende aqui, é instigar a valorização da produção artística local nos seus diversos aspectos e a produção de materiais didáticos que favoreçam a prática em sala de aula nos estudos das manifestações artísticas locais.

 

 

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Como trabalho de conclusão do curso de Pós-Graduação Latu Sensu em Arte e Educação pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – Uniasselvi, esta proposta de cunho qualitativo teve uma abordagem teórica baseada nos documentos que tratam do ensino da arte e alguns autores que analisam essa temática. Incluiu também, entrevistas semiestruturadas desenvolvidas com três artistas da cidade de Chapecó – SC, dentre eles: Lenice Weis, Janaina Schvambach e Luciano Guralski.

Para Marconi e Lakatos (2011), as entrevistas semiestruturadas tem como objetivo, proporcionar um diálogo mais aberto de modo que o/a pesquisador/a possa explorar mais amplamente a questão. A mesmas podem ser divididas em: focalizada, clínica e não dirigida. Neste estudo, fez-se uso do método de entrevista semiestruturada focalizada, por compreender, segundo as autoras citadas, que o método focalizado possui um roteiro de tópicos relativos ao problema a ser estudado e o pesquisador pode fazer outras perguntas no decorrer do processo.

A entrevista com a artista Lenice Weis, foi desenvolvida no ano de 2014, a qual fez parte de um projeto de pesquisa realizado anteriormente no curso de graduação em Artes Visuais – Licenciatura na Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó. Nesse contexto a pesquisa na pós-graduação latu sensu a qual resultou neste estudo, também é uma continuidade do estudo anterior, tendo em vista que muitas inquietações surgem ao concluir que os/as estudantes pouco sabiam sobre as produções artísticas locais.

A partir dessas inquietações, buscando ampliar a pesquisa, para este estudo desenvolveu-se mais duas entrevistas, com Janaina Schvambach e Luciano Guralski, ambas no ano de 2016. Elaborou-se um roteiro com alguns questionamentos introdutórios da conversa. Iniciando pela explicação acerca do que constituía a pesquisa do qual o/a mesmo/a estava participando. Seguindo com temas que abordavam informações básicas como: nome completo, idade, local de nascimento e a quanto tempo reside em Chapeco; quando começou a trabalhar como artista e o que o/a levou a desenvolver sua poética; quantas e quais exposições participou; quais materiais utiliza; que artistas ou movimentos inspiram seu trabalho e o que a arte representa para o/a mesmo/a. Dessa forma, estabeleceu-se um diálogo no decorrer da conversa, instigando-os a falar mais sobre seu trabalho.

 

 

3 OS ARTISTAS LOCAIS E A IMPORTÂNCIA DE CONHECÊ – LOS

Na reflexão que se segue, buscou-se entender aspectos em torno da disciplina de arte amparados nos documentos que a regem e alguns autores que dialogam sobre esse tema. Iniciou-se com uma contextualização da cidade em que o estudo se refere, por compreender que os aspectos históricos da mesma se fazem relevantes para estabelecer relações com a importância da abordagem dos artistas locais em sala de aula, bem como com a produção dos artistas. Entretanto, não é objeto deste artigo aprofundar o processo histórico da cidade, mas sim explicitar a região abordada.

A cidade de Chapecó emancipada em 1917, tem em seu processo colonizador fatos históricos que estão enraizados com o contexto do Oeste catarinense como um todo. Até a década de 50 segundo Bellani (1991), quando ocorreu o primeiro desmembramento, a cidade possuía uma larga faixa de terras. “O município de Chapecó atual, conhecido como o ‘Município Mãe’, deu origem às divisões político-administrativas que compõem as microrregiões catarinenses da AMOSC, AMEOSC e AMAI, excluindo, apenas, o Município de Ponte Serrada (SC)” (BELLANI, 1991, p. 6).

As atividades econômicas segundo Bavaresco (2005), passaram por quatro momentos: o ciclo da pecuária, da erva-mate, da madeira e o da agroindústria. Dentre as populações que aqui se fizeram/fazem presentes, Poli (2014) aponta que a região passa por três fases: a fase indígena em meados do século XIX; a fase cabocla, população que sucedeu e miscigenou-se com os indígenas e a fase da colonização caracterizada pela vinda de imigrantes do Rio Grande do Sul através do desenvolvimento do projeto de colonização e exploração da madeira.

Os movimentos artísticos na cidade em que este estudo se refere, começam a aparecer de maneira mais tardia devido ao processo colonizador. Por outro lado, não se pode esquecer das manifestações indígenas que se fizeram e se fazem presentes até hoje e antecedem todo esse processo. Em relação a história da arte, Kuester (2009-2014), aborda que em 2009 foi inaugurado o MHAC (Museu de História e Arte de Chapecó), criado pela Lei Nº 5661 de 13 de novembro de 2009. O mesmo deve abrigar dois acervos: um acerca da história político administrativa do município e outro referente aos movimentos artísticos. Com a criação do museu as manifestações artísticas passam a ser documentadas, o que é objeto de pesquisa da autora ora citada.

As manifestações artísticas segundo Kuester (2009-2014), se fizeram presentes a partir da demanda de uma elite econômica, política e intelectual. Efetivando-se a partir do grupo CHAP, formado por artistas que em sua maioria não eram da cidade e sim do Rio Grande do Sul e até mesmo de Portugal, como é o caso de Agostinho Duarte.

Segue-se, que os movimentos artísticos locais são pouco trabalhados, muitas vezes pela falta de material didático ou por carência de informações dos artistas locais. Os livros didáticos das escolas abordam na grande maioria, artistas internacionais e poucos brasileiros, sabe-se que é necessário conhecer o que ocorre mundo afora e, a tecnologia nos proporciona isso em tempo real. Porém, existe a necessidade de incumbir-se da realidade dos/das estudantes e isso pode ser possível a partir da compreensão e valorização dos movimentos artísticos que ocorrem no seu entorno.

Pensar o ensino da arte na educação básica está além do simples fato de saber que cabe aos professores proporcionar aos estudantes os principais nomes/movimentos da história da arte, bem como os da atualidade. Os Parâmetros Curriculares Nacionais não especificam nenhum nome a ser estudado, mas eleva o fato de ser necessário a abordagem do cotidiano vivido pelos/pelas estudantes, as práticas culturais locais, o ambiente em que o/a mesmo/a vive, de que experiências compartilha e de que forma usa tais para interagir no ambiente escolar e fora dele. “É papel da escola incluir as informações sobre a arte produzida e recebida nos âmbitos regional, nacional e internacional” (PCN, 1998, p. 47).

Diante dessa afirmação pode-se indagar: de que forma os professores em sala de aula podem abordar a cultura local e como estudaríamos os artistas locais em sala de aula? Se refletirmos acerca dos livros e materiais didáticos disponibilizados para a disciplina de arte, não é isso que se evidencia, pois esses materiais abordam o que se pretende com ensino num âmbito nacional. Outro fator importante é que muitos dos artistas locais ainda não têm seu trabalho divulgado por todo o país, mas sim, na cidade ou estado onde vivem.

Pillotto (2008 p. 45) nos questiona, “até que ponto nos reconhecemos na arte e naqueles que a produzem? ” É nesse momento que a contextualização da obra de arte precisa estar fundamentada nos contextos sociais e culturais para que possam refletir no ambiente vivido pelos/as estudantes. A partir das concepções de Pillotto (2008), é possível enfatizar ainda mais a produção artística local aproximando os/as estudantes da sua realidade. Para tanto, a valorização da cultura é também a valorização dos indivíduos que a fazem e se tratando da disciplina de arte, torna-se relevante abordar os artistas locais, o que produzem e por que produzem. Em consonância, a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina deixa claro essa necessidade.

[...]faz-se relevante uma reflexão sobre o saber e a cultura regionais, já que, na organização e na seleção de conteúdos, é importante considerar a produção artística do local em que vivem os estudantes, bem como o contexto global em que se inserem e com isso articular aspectos relevantes do fazer artístico, que marcam e caracterizam a localidade, tanto quanto tematizar como se relacionam com o mundo (SANTA CATARINA, 2014, p. 100).

 

Para que os/as estudantes possam compreender a relevância de outras esferas do conhecimento e que essas não se tornem distantes e difíceis de se relacionar com a realidade vivida, é preciso problematizar o conteúdo social - cultural do lugar em que se vive e a arte nos proporciona isso a partir dos movimentos artísticos.

Desde a infância, tanto as crianças como nós, professores, interagimos com as nossas manifestações culturais de nossas ambiências e vamos aprendendo a demonstrar nosso prazer e gosto, por exemplo, por imagens, músicas, falas, movimentos, histórias, jogos e informações com os quais nos comunicamos na vida cotidiana (por meio de conversas, livros ilustrados, feiras, exposições, rádio, televisão, discos, vídeos, revistas, cartazes, vitrines, ruas, etc.). Gradativamente, vamos dando forma as nossas maneiras de admirar, gostar, de julgar, de apreciar - e também de fazer – as diferentes manifestações culturais de nosso grupo social e, dentre elas, as obras de arte (FERRAZ e FUSARI, 1993, p. 16).

 

Sendo assim, é necessário o estímulo para que o indivíduo cresça culturalmente na e para a sociedade em que vive. Assim como nos é proposto na atual Base Nacional Comum Curricular, quando aponta como competências a serem desenvolvidas na disciplina de arte “explorar, conhecer, fruir e analisar criticamente práticas e produções artísticas e culturais do seu entorno social” (BNCC, 2017, p.196).

A partir dessas concepções coloca-se em pauta que a escola precisa olhar mais as manifestações culturais em que está inserida e ouvir mais o que os/as estudantes tem a dizer, pois “ainda olhamos muito pouco a produção de nossos aprendizes; ainda escutamos muito pouco o que permitimos que eles nos digam” (BARBOSA, 2002, p. 63). Ana Mae Barbosa nos deixa claro que a produção artística deve estar relacionada com o ambiente vivido pelos estudantes, já que “não é possível o desenvolvimento de uma cultura sem o desenvolvimento de suas formas artísticas” (BARBOSA, 2009, p. 5).

Ainda segundo a autora ora citada, “somente a ação inteligente e empática do professor pode tornar a arte ingrediente essencial para favorecer o crescimento individual e o comportamento de cidadão como fruidor de cultura e conhecedor da construção de sua própria nação” (BARBOSA, 2002, p. 14). A disciplina de arte tem como função também, formar cidadãos que participam e se envolvem com projetos culturais do seu entorno.

O ensino precisa constantemente ser ressignificado de forma que se associe com a realidade dos/das estudantes, para que compreendam como arte se manifesta em suas vidas e não somente nos espaços específicos a isso.

 

 

ALGUNS ARTISTAS: POSSÍVEIS RELAÇÕES COM O COTIDIANO

A partir dos conceitos e questionamentos apresentados anteriormente, abordamos nesta seção o trabalho de alguns artistas chapecoenses enfatizando sua proposta artística, bem como possíveis relações a serem feitas com o cotidiano dos/das estudantes.

 

Lenice Weis

Lenice Weis nasceu em Itapiranga - SC em 23 de março de 1959. Seu pai, Pedro Lindolfo Weis segundo a artista, foi de grande influência para sua formação artística; em entrevista ela comenta, “ele mostrava-me uma pedra, folha ou o céu e dizia, olha, perceba os detalhes, veja como está diferente”1!

Seus oito irmãos foram parte da infância que ela transformaria em produção artística futuramente, pois estiveram com ela nas brincadeiras e nos dias de abate do porco e de tantos outros momentos que influenciaram no desenvolvimento de seu trabalho. Em sua fala Lenice relata, “nos dias de matança não queria ir para aula, aquilo tudo era mágico para mim”2!

Segundo a artista, o início de seu trabalho ocorre quando seu professor da faculdade de Florianópolis - (UDESC) - em 1979 pediu para que ela fizesse desenhos sobre sua infância, no entanto eram só formas que lembravam os órgãos internos do porco. A artista começou a reproduzir essas formas porque lembravam os dias que sua família fazia o abate do porco, que enquanto isso as crianças criavam brincadeiras típicas da região naquela época. Uma das atividades era transformar a bexiga do porco em uma bola.

Segundo Lenice na arte “é preciso ser algo que se acredite que parte do interior e que é nos pequenos detalhes que se encontra a verdadeira essência3”.

A artista inicia sua produção com pinturas que remetem aos órgãos do porco onde ela busca retratar algo que é seu e está impregnado em sua história e vivência familiar.

A imagem das entranhas de um porco, uma das mais fortes lembranças de infância de Lenice Weis, é responsável pela descoberta de seu caminho artístico. Quando ela desperta para a arte, já no curso das Artes Plásticas, passa a se inspirar nas formas, nas cores e nos encaixes dos órgãos internos do animal, que ela via sendo morto para se transformar em carne e linguiça. ‘Não é protesto. Utilizo essas formas pela sua plasticidade, que é perfeita’, diz a artista (MATTOS, 2014, p. 94).

 

É notável que esse trabalho partiu de uma vivência própria da artista, mas também remete ao processo cultural dessa região onde tal atividade era comum. Já que nas famílias do Oeste catarinense nos dias em que se abatia um animal era motivo de reunir os vizinhos e confraternizar. Pensar o trabalho de Lenice é então refletir sobre essas questões que vão muito além do simples fato de ser o principal componente do cardápio das famílias da região, e sim, permeia por todas as questões sociais e culturais da mesma.

A busca por uma produção que saísse do bidimensional fez com que Lenice recriasse ainda mais seu trabalho que trouxe para a praça central do município de Chapecó (SC), algo que como consta em seu portfólio, “atraia moscas e repelia seres humanos” no momento em que ela transforma vísceras em rosas, as flores de Chapecó e por que não do Oeste catarinense. Uma produção que veio mostrar o contexto vivido pela artista, porém algo que ao mesmo tempo em que é só dela é também de todos que residem nessa região, pois muitas famílias passaram por essa experiência, considerando o fato de que a criação de suínos está presente nas famílias muito antes da chegada das agroindústrias. A partir de então, seu trabalho tomou uma forma excepcional.

Ao realizar instalações e intervenções urbanas, num segundo momento de sua trajetória artística, o que muda é apenas o material utilizado. Em vez de tintas reproduzindo as formas na tela, os próprios órgãos e vísceras do animal é que são a matéria-prima, depois de passarem por um tratamento que inclui limpeza e assepsia e, em seguida, um banho de cor, todos processos que ela mesma criou e executa (MATTOS, 2014, p. 94).

 

Segundo a artista, para a conservação dos materiais ela usa formol, depois mergulha no álcool com anilina e assim concebe novas cores e formas para o mundo mágico de sua infância. O trabalho de Lenice ganha forma através da matéria orgânica que trata muito além de questões pertinentes aos seus momentos de infância, embora seja essa a proposta da artista, quando reporta-se ao seu trabalho é “impossível” não lembrar da realidade social a qual a região se insere.

Ao nomear sua intervenção realizada em 2010 na praça Coronel Ernesto Bertaso de Chapecó – SC como “Cidade das rosas”, não está só remetendo à um antigo apelido da cidade, mas propõem o pensamento acerca dos âmbitos que essas rosas feitas de vísceras de suínos abrangem, que é de fato o contexto social da região onde a base da economia é desde o princípio da colonização, a criação de suíno.

Levar o trabalho dessa artista para sala de aula pode proporcionar uma ampla relação com a história do Oeste catarinense, sendo possível adentrar no processo de colonização da cidade de Chapecó que perpassará a história de vida dos/das próprios estudantes, encontrando na sua própria família resquícios dessa história.

Os estudos podem permear todo contexto histórico da obra e relações com o cotidiano, perpassando pela leitura de imagem, desenvolvendo práticas a partir das pinturas da artista, assim como a possibilidade da intervenção urbana em uma relação com as produções artísticas contemporâneas e a obra de Lenice.

 

Janaina Schvambach

Janaina Schvambach artista chapecoense, nasceu em São Miguel do Oeste em 1981. Reside em Chapecó desde os 11 anos de idade. Com 22 anos foi para Pelotas, Rio Grande do Sul, onde na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), cursou Licenciatura em Artes com habilitação em Desenho e Computação Gráfica. Também cursou mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural pela mesma universidade. Em 2010 voltou à Chapecó.

O início de seu trabalho artístico pode ser considerado a partir do momento em que surgiu a oportunidade de ser monitora de fotografia na UFPel, que possibilitou o aperfeiçoamento da técnica. Como artista, Janaina começou sua produção em 2011 iniciando seu pensamento artístico em relação à temática e suas relevâncias. Segundo ela, “a arte é uma maneira de viver, não é possível viver sem, e faz parte do dia-a-dia4”. De modo que existe a necessidade da produção.

Dentre as principais exposições está o circuito do SESC5 de 2013, com uma exposição individual que percorreu cidades como Jaraguá do Sul e São Bento do Sul pelo edital do estado de Santa Catarina. A mesma exposição que é intitulada “A Paisagem Real”, também foi exposta a partir de convite do SESC Joinville – SC. A artista também foi selecionada no 11º Salão Elke Ering 2014 de Blumenau – SC e para o XIII Salão Nacional de Artes de Itajaí 2013, com uma proposta de intervenção urbana, o qual segundo ela, foi um trabalho diferente.

No ano de 2017 a artista desenvolveu o projeto intitulado 100 Breves Imaginários, pela prefeitura de Chapecó – SC, com a parceria do escritor André Timm em homenagem aos 100 anos de Chapecó. O projeto se desenvolveu a partir da ideia do flâneur, que consiste no indivíduo que anda pela cidade a fim de experimentá-la e captar uma Chapecó diferente. Essa artista e esse escritor formaram a imagem e história dessa cidade como um cartão postal. E como os próprios autores dizem, foi a descoberta da cidade que é uma entre tantas, mas que é capaz de ter cartões postais bem distintos.

Segundo Schvambach (2017), a artista e o escritor se lançaram para a tarefa de flanar pelas ruas de Chapecó na busca por belezas subjetivas e fugidas, aquelas que muitas vezes se perdem no tempo, tempo esse que ganha importância nos 100 anos da cidade. Dentre os materiais utilizados pela artista está o papel fotográfico.

O trabalho de Janaina gira em torno da paisagem, porém a paisagem não é uma paisagem em si, e sim um espelho, em que ela se projeta e se vê nela de forma que a representa através de elementos subliminares, como exemplo a nuvem. A artista faz uma relação com nós seres humanos como se fossemos nuvens, pois as vezes estamos cheios, as vezes estamos negros, as vezes estamos claros, as vezes estamos leves e as vezes esse céu não tem nada. Sendo assim, a paisagem sustenta um ser que é a própria artista, conforme explica Janaina,

A proposta procura integrar o espaço da paisagem a um ambiente artístico através de diversos olhares diferenciados ao meio natural. Não se trata de uma temática ambiental e sim, sobre o olhar permanente e atento ao nosso meio. São vistas únicas, imóveis e efêmeras. São pequenos traços de memória aprisionados pela técnica fotográfica e que conversam com o conceito de fotografia expandida, em que as representações dialogam entre si no espaço da galeria, como também entre os suportes e técnicas escolhidas (Portfólio da artista).

A fotografia expandida dessa artista vem de encontro a nós de forma que expressão, qualidade técnica de luz, cor, enquadramento, nitidez, percepção, proporção e outros elementos técnicos, incidem ao retrato do olhar da mesma sobre uma paisagem que existe para todos nós, mas que nos é mostrada por outro ângulo, nos trazendo significados diferentes e transmitindo sensações diversas.

Ao pensar o trabalho de Janaina na educação básica é possível propor uma série de experimentações, possibilitando a compreensão do olhar da artista que propõem uma nova forma de ver o lugar em que se vive. Compreende-se também, a importância de ampliar a abordagem fotográfica a partir do trabalho da mesma, trazendo os conceitos e história da fotografia, bem como produções fotográficas de outros artistas. Os locais retratados podem ser referenciados aos estudantes de forma que são da cidade e do estado em que os mesmos vivem e conhecem, mostrando como a arte se faz no lugar onde vivemos.

A ação didática do/da professor/a pode variar desde o estímulo aos estudantes em produzir suas próprias fotografias, se portando de maneira crítica em relação às mesmas, bem como a intervenção com outros materiais e técnicas em fotografias já existentes. É importante ressaltar que os/as estudantes já vivenciam o fazer fotográfico em decorrência dos aparelhos tecnológicos que estão presentes em suas vidas. Isso abre caminho para instigar o olhar crítico, estético e artístico que a fotografia pode proporcionar, compreendendo os mais diversos usos da mesma.

 

Luciano Guralski

Luciano Guralski, artista natural da cidade de Chapecó, nascido em 1972. Possui Graduação em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000). Atua como professor de arte na educação básica e também trabalha com a produção de textos para exposições de artistas chapecoenses.

Sua produção artística se dá a partir do ano de 2007, momento em que seu trabalho tomou ênfase através do pretexto do SESC pelo âmbito teórico que abriu espaço e interesse na produção artística prática. Como profissionais inspiradores da sua formação artística o mesmo cita seus professores, entre eles, Neoci Fin. Para Luciano “a arte é comunicação, é uma forma de dizer algo6”.

Dentre os materiais e técnicas mais utilizados pelo artista constata-se: fotografia, performance e vídeo, sendo que o corpo é usado como suporte consistindo no próprio objeto de estudo. As principais exposições em que o artista participou são: Pretexto do SESC Chapecó, Panorama e o Salão de Chapecó. Questões como, identidade, auto retrato, homossexualidade e religiosidade (a forma como a religião marca as pessoas) estão presentes em seu trabalho.

Na série “duplo Auto-retrato”, segundo Guralski (2008), o corpo como estudo aparece nos registros fotográficos com inspiração na body-art em que o mesmo realiza intervenções no próprio corpo através de incisões, tatuagens e escritas não codificadas. Usando radiografias o artista faz sobreposições do interno sobre o externo em seu corpo, dessa forma se aproxima e se distancia ao mesmo tempo dos retratos renascentistas.

O artista apropria-se da arte para falar desse ser atual, que é ele mesmo, se tratando do quão a identidade do ser humano diz e deixa de dizer coisas a seu respeito, que muitas vezes são responsáveis pelo preconceito existente na sociedade. Esse preconceito tem como resultado a inibição de muitas pessoas que se calam nelas mesmas a fim de não “perturbar” esse ou aquele ambiente. No trabalho de Luciano vem a calhar toda essa inibição. Sobretudo, perceber a obra desse artista é se perceber também nessa sociedade a qual fazemos parte e muitas vezes não nos damos conta. Não percebemos que esse ambiente preconceituoso também é feito por nós e que precisamos repensar nossas atitudes para que mudanças venham a ocorrer.

Na série In(perfeito) Luciano discute questões de preconceito em relação aos homossexuais e bissexuais, pois dentre tantas ideias impostas à identidade dessas pessoas, uma delas é que não podem doar sangue. O artista faz uma crítica a esse pensamento, através de uma performance onde retira o próprio sangue e joga no ralo, fazendo uma alusão ao sangue que dizem ser inapto. A base de nossa formação social está ancorada por padrões pré-estabelecidos, o que dificulta muito a mudança do pensamento e formas de agir. São trabalhos como esses que nos sensibilizam para essa realidade.

Ao pensarmos o trabalho artístico de Luciano Guralski na prática escolar, podemos abordar muitas questões relacionadas à gênero, religiosidade e discussões acerca de todas as formas de preconceito. Fato que é corriqueiro nas escolas, sendo que ocorre de todas as formas. A escola é o ambiente onde todos os tipos de culturas se encontram e todas as formas de pensar são discutidas, por isso é necessário preparar os indivíduos que a frequentam para essa realidade.

A arte vem de encontro a muitas dessas questões por tratar da vivência humana e da maneira como cada ser vive e se expressa. A prática em sala de aula pode ser permeada pelas manifestações diversas da arte contemporânea. Os/as estudantes podem desenvolver suas próprias performances buscando manifestar algo que os inquiete. Importante ressaltar que a atitude profissional do/a professor/a, como mediador do processo, deve tornar essa prática relevante para os estudantes e para o ambiente escolar, bem como ter consciência da faixa etária em que pode ser aplicado.

É fazendo relações do trabalho artístico com o cotidiano dos estudantes que pode ser possível tornar o ensino da arte significativo para os mesmos. Ampliando assim, a abordagem do trabalho dos artistas locais e relacionando profundamente com seu/nosso cotidiano.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da pesquisa apresentada compreende-se que é possível e necessário trabalhar as manifestações culturais locais em sala de aula, interligando-as aos movimentos culturais que ocorrem mundo afora. O que não se pode é deixar de trazer para os/as estudantes a arte que acontece no lugar em que estão inseridos. Precisamos expor o quanto a mesma é importante para que as gerações futuras vivenciem mais a arte e que essa não seja uma experiência para poucos.

A arte se faz de maneira relevante no desenvolvimento pessoal e social do/da estudante, de modo que pode desenvolver sua expressão, criatividade e criticidade. Diante disso é notável sua importância e, no sentido desta abordagem, compreende-se que os/as, estudantes podem potencializar todas essas capacidades além da possibilidade de se basear primeiramente em um artista que está ao seu alcance para posteriormente conhecer de forma global o mundo da arte.

É notável o quanto uma sociedade necessita das manifestações artísticas, como vemos na cidade em que este estudo se refere. Pois, assim que o processo de desenvolvimento acelerou, também buscou-se ampliar as manifestações artísticas, trazendo artistas de outras localidades e instigando aqueles que aqui viviam para a importância da mesma. Compreende-se que essa foi uma maneira de estimular a produção artística a qual teve crescimento substancial.

As obras dos artistas abordados neste trabalho, proporcionam uma reflexão inicial acerca do quão amplas podem ser as abordagens feitas a partir dos temas desenvolvidos pelos mesmos. A possibilidade de diversidade de técnicas que podem ser trabalhadas com os estudantes nos mostra que os conteúdos previstos nos parâmetros curriculares, bem como aqueles elaborados para cada região, podem contemplar obras de artistas locais dentro do contexto dos conteúdos estudado num âmbito regional e nacional.

Partindo da vivência local para uma visão e conceituação holística é necessário fazer diferente, buscando a melhoria da educação e principalmente o ensino da arte, pois sabemos que o mesmo também é rodeado de pré-conceitos e que a sociedade não aceita mudanças se não vivenciar e entender tais transformações. Isso pode ser possível se começarmos a incentivar a valorização do contexto local na educação básica.

Este estudo revela que poucas são as informações publicadas sobre os artistas locais e que isso dificulta a abordagem em sala de aula. Também proporciona reflexões acerca das relações entre a obras desses artistas com o cotidiano dos/das estudantes.

 

 

1 Mestranda em Educação pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó. Especialização em Arte e Educação pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – Uniasselvi. Graduada em Artes Visuais – Licenciatura pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó. E-mail. marialuzia@unochapeco.edu.br.

2 Graduada em Pedagogia – Licenciatura pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI, com especialização em Atendimento Educacional Especializado pela Portal Faculdades; Educação Especial pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI; Psicopedagogia pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI. E-mail. angelbortt@gmail.com.

 

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______. 100 breves imaginários: centenário de Chapecó / Fotografias de Janaina Schvambach ; textos de André Timm. – Chapecó (SC): ed. do Autor, 2017.

PILLOTTO, Silvia Sell Duarte. A arte e seu ensino na contemporaneidade. In. Ensaios em torno da arte / Sandra Makowiecky, Sandra Ramalho e Oliveira (Orgs.). Chapecó: Argos, 2008.

POLI, Jaci. Caboclo: Pioneirismo e marginalização. Revista Cadernos do Ceom, v. 19, n. 23, p. 149-188, 2014.

WEIS, Lenice. Portfólio: acervo da artista / Artes Visuais (1987-2011).

Entrevistas

GURALSKI, Luciano. Chapecó – SC, novembro de 2016.

SCHVAMBACH, Janaina. Chapecó – SC, novembro de 2016.

WEIS, Lenice. Chapecó - SC, março de 2014.

1 WEIS, Lenice. Entrevista.

2 Idem.

3 Idem.

4 SCHVAMBACH, Janaina. Entrevista.

5 Serviço Social do Comércio, presente em todos os estados brasileiros, o SESC promove ações no campo da Educação, Saúde, Cultura, Lazer e Assistência.

6 GURALSKI, Luciano. Entrevista.

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