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A conquista do diploma: símbolo de liberdade e independência

Histórias

Texto Vanessa Marquezzan*

 

Uma hora e vinte é o tempo que demora para que Priscila Néris saia da aldeia onde vive e chegue até a Universidade. Ela é formanda de Licenciatura Intercultural Indígena em Pedagogia da Unochapecó e reside na aldeia Pinhalzinho, pertencente ao município de Ipuaçu. Na localidade convivem cerca de 1,3 mil índios Kaingang. Priscila tinha o sonho de ser professora, e hoje (08/03), quando se comemora o Dia da Mulher, chegou a hora de receber seu diploma.

Foram cinco anos dedicados à formação acadêmica. Priscila, assim como os outros graduandos de Licenciatura Indígena, abriram mão de muitos fins de semana com a família para poder estudar, já que todas as sextas-feiras e sábados aconteciam as aulas presenciais na Escola Indígena de Ensino Fundamental Fennó, na Terra Indígena Toldo Chimbangue, em Chapecó, ou na Universidade. Hoje com 33 anos, ela relata que a cada dia em que precisava sair na sexta-feira para estudar, ia com o coração partido, pois precisava deixar seu filho e sua família. "Mas não me arrependo, porque cada vez que meu filho chorou e disse 'mãe, fica em casa comigo?', eu disse para ele 'cada vez que a mãe vai, a mãe está mais próxima de mudar a tua e a minha vida'".

Receber o diploma no Dia da Mulher é mais que uma conquista para Priscila, representa liberdade. "A conclusão da graduação é a realização de um sonho, a minha liberdade e independência, principalmente neste mundo em que a mulher é muito discriminada. A gente pode ir muito além, lutamos todos os dias. Eu acho que como mulher nesta sociedade muito machista, quando você tem liberdade, as pessoas começam a te ver com outro olhar", afirma Priscila.

Além da liberdade, outra meta de Priscila é ser uma boa profissional em qualquer espaço que estiver. Mas espera, principalmente, ser reconhecida como uma boa professora indígena, pois, segundo ela, é preciso desmistificar a visão das pessoas sobre seu povo. "Quando eu trabalhava fora da aldeia, vi um dia uma professora falar sobre indígenas para as crianças. Aí questionei ela: 'como que você vai mostrar um indígena nu, com pena na cabeça, e dizer que aqui perto do município têm indígenas? Eles vão procurar esse indígena que você mostrou, mas ele não mora mais desse jeito, ele perdeu bastante coisa da sua cultura'. Por isso, um dia pretendo ir trabalhar fora da aldeia, para ter a oportunidade de desmistificar as coisas que as pessoas de fora pensam sobre nós, para esclarecer muitos mitos sobre a nossa cultura", relata Priscila.

Desde que iniciou a graduação, ela começou a dar aula nas escolas da aldeia. Hoje atua como professora da educação infantil pela parte da manhã na Escola Municipal de Educação Infantil Kokoj Si e à tarde como orientadora da língua Kaingang para alunos do primeiro ao terceiro ano da Escola Indígena de Ensino Fundamental Pinhalzinho.

No caso de Priscila e das outras estudantes de Licenciatura Indígena, a relação entre professor e aluno vai muito além das barreiras da sala de aula. Por conhecer de perto a realidade do seu povo e poder trabalhar na preservação da sua cultura, o amor pela profissão se torna ainda mais intenso. Ver esse espaço importante que a mulher indígena conquistou é motivo de realização. "Hoje, na aldeia, eles veem a mulher como independente, batalhadora, pois tem uma força que ela já possuía, mas não tinha descoberto. Além disso, nos enxergam como forte no sentido que não precisa mais constituir uma família para sobreviver, para depender do marido. Nós mulheres indígenas podemos ir além do que a gente imagina", finaliza Priscila.

 

Formada aos 40

A conquista do diploma de pedagoga é um sonho concretizado não só por Priscila, mas também pelas outras 11 mulheres que vão se formar nesta sexta (08/03) no curso de Licenciatura Intercultural Indígena em Pedagogia da Unochapecó. Entre elas está, também, Neusa Rodrigues, moradora e professora da aldeia Toldo Chimbangue de Chapecó.

Ao longo de sua vida, Neusa enfrentou várias dificuldades e não pôde continuar os estudos. Com o passar dos anos, ela casou e teve filhos, mas nunca perdeu a esperança de um dia voltar a estudar. Quando soube do curso de Licenciatura Indígena, viu nele a oportunidade de fazer uma graduação. Assim, aos 40 anos, ela vai receber o tão sonhado diploma, símbolo de independência. A conquista também é motivo de orgulho para sua família, principalmente para o pai, que hoje vê mais um filho se formar.

"Tive que me esforçar muito para poder cursar a graduação, pois, depois que você constituiu família, é mais difícil para estudar. Agora vou poder dar uma condição melhor para os meus filhos. Foi uma conquista e tanto, que eu nunca imaginava, como mulher, chegar até o final, mas que me fortaleceu e me tornou muito mais poderosa", relata Neusa.

O curso em Licenciatura Indígena é um incentivo para muitas mulheres, especialmente às que vivem nas aldeias. É a oportunidade de repassar a cultura para outras gerações e fortalecê-la. E foi justamente ao ver a mãe fazendo faculdade e realizando um sonho, que a filha de Neusa, de 15 anos, já decidiu que no futuro também quer ser pedagoga. Um amor que passou de mãe para filha.

Hoje, Neusa atua como professora de Educação Especial com quatro alunos da Escola Indígena de Ensino Fundamental Fennó. Por atuar nessa área, um dos seus planos para o futuro é fazer uma pós-graduação em Educação Especial, para estar ainda mais qualificada ao atender os alunos com deficiência. Esse sonho é um exemplo do que hoje representa a independência das mulheres numa aldeia. "Nós somos mulheres guerreiras, lutamos pelo que queremos. Acho que hoje, nós somos as mais fortes dentro de uma aldeia. Aqui na minha a maioria é independente, tem o seu trabalho, a sua casa, já não é mais como antes que dependiam só dos maridos", explica Neusa.

Por isso, receber o diploma no Dia da Mulher vai tornar a data ainda mais inesquecível. "Quero falar para as mulheres lutarem assim como eu lutei e continuarei lutando. Peço para que as mulheres que ainda estão paradas, lutem com garra e força, que elas vão conseguir, pois somos independentes e senhoras de si", finaliza.

 

A graduação

O curso de Licenciatura Intercultural Indígena é ofertado pela Unochapecó, em convênio com a Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina. Esta é a segunda edição da graduação, que atende cinco aldeias da região. Os estudantes, além de realizarem o curso de forma gratuita, através do convênio, também recebem benefícios que incluem o transporte das aldeias até o local de aula, a estadia de sexta-feira para sábado e as refeições realizadas neste período.

Os acadêmicos podem escolher entre as quatro áreas do conhecimento ofertadas: Línguas, Artes e Literaturas; Ciências Sociais; Matemática e Ciências da Natureza; e Pedagogia. A graduação tem duração de cinco anos e é realizada presencialmente duas vezes por semana, na sexta-feira e no sábado, na Escola Indígena de Educação Básica Fennó, na Terra Indígena Toldo Chimbangue, em Chapecó, ou na Unochapecó.

Nos dois primeiros anos do curso, os estudantes de todas as áreas cursam juntos as disciplinas gerais. Já os últimos três anos são destinados à formação específica na respectiva área do conhecimento escolhida. As aulas são planejadas para atender as necessidades dos indígenas. "Por estarem somente em indígenas, facilita a aprendizagem e o desempenho. As atividades são desenvolvidas todas em sala de aula, nós trabalhamos no tempo e na cultura deles", explica a coordenadora de Licenciatura Intercultural Indígena em Pedagogia, professora Suzi Laura da Cunha.

Apesar da dificuldade em se deslocar da aldeia para estudar, já é possível ver a recompensa de todo esse esforço. As alunas estão realizando as provas para atuarem como professores das escolas públicas e conquistando boas colocações. "Essas mulheres viram que o diploma simboliza independência e a possibilidade de mudança de vida", complementa a professora.

Muitas das alunas são as primeiras da família a conquistar o tão sonhado diploma, o que torna a formatura ainda mais especial. "Esse foi um projeto fundamental para empoderar essas mulheres e dizer 'agora vão e sigam o caminho de vocês, que vocês podem'. A gente sabe que elas têm uma caminhada para frente, melhor do que era antes", finaliza.

 

*Estagiária, sob a supervisão de Jessica De Marco

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